10 anos de impunidade no México para as vítimas migrantes do massacre de San Fernando, em Tamaulipas

O Senhor nos pedirá as contas de todos os migrantes mortos durante a viagem da esperança e que têm sido vítimas da cultura do descarte” (Papa Francisco, Ângelus, 23 de agosto de 2020).

No marco dos 10 anos da chacina em San Fernando – Tamaulipas, mais conhecido como o massacre das 72 vítimas, queremos, como Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo Scalabrinianas, unir-nos às famílias das vítimas com fé e esperança, e também com coragem na busca pela verdade, justiça e reparação.

A rota entre México-Estados Unidos é considerada uma das com o maior trânsito migratório no mundo e uma das mais perigosas para as pessoas migrantes que são vítimas de diversos delitos como sequestros, extorsões, desaparecimentos e execuções.

Há 10 anos em San Fernando, Tamaulipas – México, foram encontrados 72 corpos de pessoas migrantes, entre eles, 58 homens e 14 mulheres, vindos de Guatemala, Honduras, El Salvador, Equador e Brasil. As vítimas foram torturadas e executadas no contexto geral de violência e desaparecimentos. As circunstâncias do ocorrido do dia 24 de agosto de 2010, o tempo de morte das vítimas e o número de sobreviventes seguem gerando dúvidas e até hoje não se tem certeza do número de sobreviventes.

O caso dos 72 imigrantes foi classificado como um episódio de violação grave aos Direitos Humanos, acompanhado, também, de uma negação sistemática para que as vítimas possam ter acesso à verdade e à justiça. Não foi realizada uma investigação concreta, não se tem investigado os delitos, tráfico, desaparecimento forçado; nem tampouco há sentenciamento de pessoas, apesar da gravidade e do tempo que passou na impunidade.

Atualmente não há certeza da identificação de todos os corpos entregues às famílias, a investigação na Procuradoria Geral da República não tem tido resultados para conhecer a verdade e acionar à Justiça.

A 10 anos deste terrível massacre, os familiares das vítimas ainda clamam pela verdade, justiça e reparação. É necessário que a Procuradoria Geral da República implemente e formalize um modelo de investigação destes fenômenos criminosos com uma perspectiva de macrocriminalidade, integrado por especialistas independentes que identifiquem os responsáveis para implementar medidas que evitem a repetição dessas graves violações.

As autoridades mexicanas devem garantir a atenção, o apoio e a reparação aos familiares das vítimas, independentemente de se encontrem fora do México. As filhas, filhos, esposas, mães e pais têm diversas necessidades de saúde física e psicológica, depois dos fatos que causaram sintomas de depressão, estresse e ansiedade, demandando tratamentos e medicamentos para tratar as consequências. Ainda existem, também, impactos econômicos, derivadas das violações cometidas, os quais devem ser atendidos diligentemente.

É necessário redignificar a memória das vítimas e de suas famílias, saber quem eram e quais foram as razões pelas quais decidiram abandonar seus países de origem em busca de melhores oportunidades de vida, saber que não eram criminosos.

Perante as pendências de México, exortamos às autoridades para cumprir as seguintes petições das vítimas:

  • Criação de um novo modelo de investigação com perspectiva de direitos humanos na Procuradoria Geral da República, que leve em consideração à macrocriminalidade como um fator determinante no caso. Criação de uma comissão especial formada com especialistas independentes e a configuração de uma equipe mista multidisciplinar com a participação da Secretaria do Governo.

  • Planejamento e implementação de políticas públicas que garantam que as violações cometidas no caso não se repitam.

  • Promover a coordenação com os países de origem das vítimas, como Guatemala e Brasil, para realizar a exumação dos corpos, com a participação de especialistas legistas independentes para a identificação dos restos mortais.

  • Realizar as exumações solicitadas pelas famílias que têm dúvidas sobre os restos mortais recebidos no ano de 2010, identificados pela Procuradoria do Estado de Tamaulipas.

  • Garantir o acesso aos direitos das vítimas desde seus países de origem, tanto a medidas de atenção e assistência como de reparação de dano, de acordo com a Lei Geral de Vítimas.

Nos solidarizamos com as famílias das vítimas do massacre de San Fernando – Tamaulipas, mas, também, com todas as famílias que têm perdido seu familiar migrante em massacres ou de forma violenta nas diversas rotas migratórias a nível mundial.

Exortamos ao governo mexicano e a todos os países de passagem e destino de pessoas migrantes e refugiadas, para atenderem o mais breve possível, as demandas das vítimas. A verdade, justiça e reparação não podem esperar mais!


Às famílias das vítimas, asseguramos nossas orações e reafirmamos nosso compromisso de acompanhá-las em suas dores e lutas.

Que, pela intercessão do Bem-aventurado João Batista Scalabrini, Pai dos Migrantes, as famílias, muito brevemente, alcancem a verdade, a justiça e a reparação e possam ser testemunhas da promessa de Jesus para “que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10).

Irmã Neusa de Fátima Mariano

Superiora Geral, Conselheiras e Secretaria Geral